RinoGas

domingo, abril 08, 2007
a páscoa dos pêlos

"... gota a gota que de mim me cai, preenchendo o corpo do copo até o limite da borda que então transborda e se demarra todo, iniciando o processo de se tornar vazio de tudo e cheio do nada. Exatamente como todos os processos naturais, seguindo o rumo dos fatos, com ausência de lógica e repleto de arbitrariedade. Receita de bolo, passo à passo. Como se a natureza corporal seguisse regras ditadas por um deus ana maria braga. Sendo que o natural me parece extremamente antinatural. Exceto o Alzheimer, porque afinal esquecer é preciso. Mas a regra é claramente ilógica, e pode-se citar toda uma gama de acontecimentos pelos quais todos todos iremos viver, se vivermos o suficiente. Como adoecer e envelhecer, passando pelos pêlos que me caem com a idade, pelos pêlos que me crescem com o passar da idade. Como se peregrinassem dos lugares certos para os errados. Quem quer ao fim da vida (porque esse será um sinal claro do início do fim) ter o escalpo sem pêlos e passar a tê-los nas costas? E em meio ao drama evolutivo, basta um rivotril para dormir o sono dos justos merecedores da paz espiritual farmacológica, agradecendo não só a farmacologia mas também a invenção da lâmina de barbear e do implante capilar. Porque afinal, se nem tudo é como deveria ser, pelo menos a natureza dos pêlos pode ser trapaceada."