RinoGas

sexta-feira, junho 24, 2005
sobre a cristaleira e o alzheimer

Guardava suas lembranças todas dentro da cristaleira da sala de visitas, entre os pratos de porcelana chinesa e as taças de cristal. A empregada tirava o pó duas vezes na semana, lustra-móveis só de quinze em quinze dias. Às vezes, quando de muito muito bom humor, como nos domingos ensolarados ou meio entristecido, como nas terças chuvosas, levava as lembranças pra varanda pra tomar um ar, respirar o cheiro da chuva ou tomar um pouco de sol. Colocava todas dentro do cercadinho e deixava o casal de porcos rosa, Tatanka e Tawanka, cuidando delas. E as lembranças respiravam, riam, sorriam e choravam. Todas muito juntas, muito unidas, enlouquecidas, ensandecidas, tresloucadas, esquizofrênicas e perfeitamente adoráveis. Depois colocava tudo de volta na lancheira e guardava na cristaleira da sala de novo.
Deixava as lembranças na sala, pra nunca poder se esquecer completamente, só não guardava no quarto porque também não queria ficar lembrando a toda hora; ninguém agüenta, nem o mais mais masoquista de todos agüenta ter as lembranças coladas no corpo e assim a vista a toda hora. Nessas horas de ficar remoendo e remoendo lembranças, entendo o real motivo dobomdeus ter criado o Alzheimer; mas uma coisa é certa, sentia uma certa segurança em saber que as lembranças estavam todas ali ao lado, na cristaleira da sala, para quando e se ele precisasse. E a cada vez que elas ficavam na sacada, ele roubava um teco da força necessária pra seguir em frente no dia-a-dia, dia após dia, minuto após minuto, para uma vida do passado, esperanças e desesperanças do futuro.