RinoGas

segunda-feira, maio 30, 2005
estrelas, cuspe, lágrimas e uma nove milímetros

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela
, levando junto todo desânimo e covardia que cabiam e se escondiam dentro do rapaz que prontamente meteu a mão na gaveta da cômoda ao lado da cama e sacou de lá sua nove milímetros e duas estrelinhas metálicas de seis pontas. Ninja.

Devagarinho começou a perambular pelo quarto, assim como quem não quer nada, só desenferrujando as juntas enquanto cantarolava Basket Case do Green Day. Tão logo chegou ao lado da porta meteu-lhe uma voadora certeira arrebentando tudo e saiu atirando balas e estrelas e babinhas de cuspe por todos os lados, em tudo que se mexia. Além de encher de buracos uma mocinha de 13 anos que fazia ponto no corredor, um drogadito e um traficante em transações um tanto suspeitas, um casal de velhinhos que amorosamente entrava de mãos dadas no quarto decadente exatamente igual ao dele e matou ainda dois dálmatas mais um pintacilgo. O dono dos passos no corredor não era exatamente quem ele pensava que fosse, mas ele jura atéhoje que o barulho dos sapatos era exatamente o mesmo. Não gostava de matar dálmatas e pintacilgos. Jovens prostitutas, viciados e bandidos, principalmente viciados, tudo bem; velhinhos felizes, até vá lá, agora cachorrinhos fofinhos e passarinhos, principalmente pintacilgos não. Ficava realmente chateado e isso acabava com o seu dia. Como é que alguém pode matar um dálmata e não ficar arrependido, ou pelo menos sem um mínimo de dor na consciência?, ele se perguntava. Pedindo desculpas e benzendo os animaizinhos estatelados no chão, mais uma vez prometeu a si mesmo que não seria mais assim e que mudaria de vida. Veementemente contrito jurou que não usaria nem 9mm, nem estrelinhas, nem babaria nunca mais também, pensou ainda em jogar as arminhas fora, tinha um lixo ali ao lado. Pensou por mais dois segundos e acabou que não se desfez delas, achou por bem guardá-las na cômoda, mas não as usaria, elas só iam ficar ali do lado e ele não as usaria mesmo mesmo, nem se ele ouvisse passos estranhos e principalmente passos suspeitos novamente.

Antes de voltar pro quarto, fragilizado e deprimido pela crise existencial que penosamente vivia, achou por bem comprar um pacote gigante de salgadinhos de soja sabor churrasco - ele era vegetariano, por uma questão de princípios, sabe? - uma garrafa de coca-cola light de dois litros e uma bíblia nova. A bíblia colocou na estante junto com as outras trinta e duas que já tinha, mas dessa vez sim ele iria ler, todinha sem pular nenhuma página, nem uma linha, nem uma palavrinha só. Talvez lê-se as outras trinta e duas também, talvez. Despejou os salgadinhos sobre o tampo da mesinha de centro enquanto bebia a coca-cola light no bico mesmo e passou a tarde toda a jogar street fight no vídeo-game com a camiseta ainda manchada de babas, vômitos de uma prostitua agonizante de treze anos e hemáceas coaguladas de um pintacilgo falecido.

Entre uma partida e outra, lágrimas escorriam por seus olhos quando se lembrava da vida que poderia ter sido daqueles dálmatas graciosos e que nunca mais seriam ou em todas as músicas que o pintacilgo nunca nunca mais cantaria nas manhãs ensolaradas de domingo. Assoava o nariz no cantinho da manga da camiseta, enquantos as lágrimas rolavam por seu rosto afora e dissolviam babas, vômitos e hemáceas, lavando não só a camiseta mas também a alma do jovem rapaz vegetariano e sensívelenquanto isso, dedos agitados e enfurecidos batiam, num joystick já um tanto desgastado, todas as injustiças da vida e do mundo.

Pausa no jogo, passos no coredor se confirmam. Coca-cola light escorrendo da mesinha e manchando mais ainda o carpê já um tanto manchado, salgadinhos de soja voam pelo ar, uma mão trêmula abre a gaveta da cômoda.

(escrito a quatro mãos, ou patas, em itálico por Olivia, o resto, meu)