RinoGas

sexta-feira, abril 01, 2005
super mega desafio e chega

a minha versão,
porque eu também sou gente,
ou não.




Uma senhora gorducha e loquaz, conversando amenidades com uma colega de serviço que carregava seu sobrepeso com muito muito esforço. Além da gordura, levavam também uma trouxa de roupa cada uma. Iam devagar, batendo papo como boas velhas comadres que eram, falando de todos que conheciam e desconheciam, enquanto praticamente se esqueciam do mundo.

Eu ali, dois passos atrás observando, quando uma estranha sensação começou a se desencadear pelo meu corpo. No meu sangue, a inquietude circulando, tendo como primeira manifestação, uma tremedeira iniciada em meu pé direito, mas que não muito se alastrou por todo corpo. E as duas boludas lá se arrastando pelas ruas.

Chegaram na pracinha, pararam do lado da fonte, abriram a respectiva trouxa de roupa, jogaram tudo dentro da água e começaram a ensaboar. Conversa vai, conversa vem, uma peça esticadinha aqui, outra ali, mais uma fofoca, mais uma meia limpa, um achismo, uma camisa branquinha branquinha, tudo colocado pra secar.

Sofriam com todo aquele trabalho, suavam desesperadamente e eu não sabia bem dizer - meio atrapalhado pela febre e a tremedeira - o que estava mais molhado, as roupas lavadas ou os vestidões surrados e encharcados, colados no corpo das bolachudas. Certo é que lavaram tudo, até a última cueca. Então se acomodaram ali mesmo no chão sujo, esperando a roupa secar, sempre sempre matraqueando sem parar. Começaram a falar então dos filhos de uma que contou como estavam todos os cinco outros e que já estava mais do que na hora do filho do meio decidir pela futura profissão. Conversaram, conversaram, conversaram até que a mais gorducha tirou um saquinho do bolso, rezou um Pai Nosso, dois Ave Marias e disse: Vamos decidir o que Zetonho vai ser da vida.

A mãe queria que ele fosse arquiteto, ao que a dona dos dados disse: Arquiteto é coisa de viado, escolhe outra coisa. A gorduchola pensou um pouco, não muito e disse: Decorador. Nem bem terminou de falar e a outra: Escuta aqui, tâmo falando do teu filho ou da porra de um mariquinhas? A mamãezona que já era vermelha, ficou roxa e disse: Ah, pode ser advogado então. A balofa dos dados revirou os olhinhos meio que reprovando a decisão, cuspiu: E eu quero que ele seja médico, quem tirar o número mais alto, leva.

E não é que deu advogado. Nem bem saiu o número e a gordona meio que desesperada falou: Melhor de três, melhor de três. Advogado de novo. Ficou com uma cara de chateação estampada no rosto e mesmo com minha febre tive certeza que ela quase falou melhor de cinco, mas desistiu de súbito e soltou um: Tem certeza que é isso que você quer? Pensa bem, hein, depois não quero reclamação. A mãezola respondeu: Hurrum, advogado tá bão. Balançando a cabeça rapidinho, o papo batendo no peito e fazendo - clesh-clesh-clesh - ficou o mais serelepe que uma gorda pode ficar e se encheu de sorrisos.

Então selaram o futuro do filho como advogado com um contrato feito de aperto de mão misturado com cuspe. Levantaram, cataram as roupas e foram embora, se chacoalhando todas. A gordona feliz da vida com o futuro advogado, enquanto seu braço gordo fazia slap-slap-slap conforme ia dando os passos curtinhos que suas pernas roludas lhe permitiam; de volta pra casa, louca pra contar a novidade pras vizinhas. A outra com cara de cu, meio decepcionada por colocar mais um advogado no mundo, mas fazer o quê, pelo menos a roupa estava linda, limpa e seca.

A temperatura do meu corpo foi gradualmente baixando e fui parando de tremer quando finalmente aceitei que nosso futuro é decidido assim, por duas baleias jogando dadinhos na praça, entre uma fofoca e outra, esparramadonas no chão, enquanto esperam a roupa secar.