RinoGas

domingo, abril 03, 2005
do amor, insatisfações e suas cartas ou breve manual para confecção de cartas de amor

a minha mais nova versão dessa versão,
meu e do ulisses, oquei?




Uma parede aqui, uma mesa ali, uma pasta largada no chão, boxes e corredores para todos os cantos, sombras, tons de cinza e sobre-tons; enquanto caminho pelo escritório mal iluminado por uma lâmpada de 45 watts, finalmente chego, e não sei exatamente como, a minha mesa e me deparo com uma carta de amor largada em cima dela. Com um certo medo e desdém - mais do primeiro que do segundo - penso em quem teria sido a cadela que ainda uma vez, como tantas tantas outras, teria escrito esta.

O mal de mulheres não amadas, mal amadas e mal comidas, reside justamente no fato de que se sentem no direito de lutar contra o fato de serem não amadas, mal amadas ou mal comidas, tendo todo o mau gosto do mundo - e talvez e muito provavelmente seja esse o motivo de assim serem - para fazerem declarações de amor, petições de melhores tratos e exigências de melhores fodas; embora eu, euzinho mesmo, nunca tenha recebido uma exigência de melhor foda. O que obviamente não muda o fato de que exigir uma melhor foda seja algo de muito muito mau gosto.

Com o desprezo que me é característico, rasgo o envelope rosinha com marcas de batom em formato de boca - deus, quem será a cadela? - e retiro a folha pautada manuscrita com caneta vermelha. A lâmpada é mesmo fraca, 45 watts, mal dá pra andar quem dirá ler. Enfrento a dificuldade e decifro a assinatura e só a assinatura da desafortunada, por ser esta a única coisa referente à carta que eu ainda não saiba. Coçando o saco com a mão direita, começo a redigir a resposta. Sou canhoto.

O meu maior problema é que sou péssimo para nomes, não guardo, isso quando pergunto. Na maioria das vezes não pergunto, não quero saber, melhor assim, tudo se torna mais fácil. Nomes atrapalham na hora de dispensar, de dizer que não dá mais, ou de se fingir que não se conhece, mas principalmente na hora de mandar respostas; o que faz do meu maior problema uma qualidade inquestionável, sem dúvida. Para uma Rosângela não sei o que escrever, talvez por ser canhoto e ter minha outra mão sempre ocupada e benevolente ainda coçando saco. Essa mão, a direita, essa sim sabe o que faz. Tiro do saco, para admirar e contemplar os lindos dedos que tão bem trabalham, e me deparo com alguns pentelhos grudados; sempre acaba vindo um ou outro junto. A mão direita soluciona todos os problemas. Coloco os pentelhos no papel como uma resposta singela a todas as dúvidas da humanidade e após concluir o embrulhozinho com um nó cego feito de sisal, sob a luz opaca de uma lâmpada de 45 watts, envio a única resposta possível e plausível no mundo para uma carta de amor.