RinoGas

quinta-feira, abril 07, 2005

Chegava em casa todos os dias muito muito cansada e antes de qualquer coisa tomava um banho para relaxar. Ensaboava bem as partes e também a consciência, enxaguava tudo junto, secava o corpinho com uma toalha felpuda e pendurava a consciência ao lado das meias e das calcinhas no suporte da cortina do banheiro.

Era assim, uma dessas mocinhas docemente míopes, incapazes de enxergar um palmo diante do nariz. Tinha verdadeira obsessão pela virtude. Acreditava ser boa e inteiramente boa, sem um só pedacinho de maldade. Esquecia-se apenas do óbvio: onde há mal, há bem e vice-versa. Assim como só existe o pecado na virtude e a virtude de pecar.

Era assim, toda obtusa, sem realmente saber que no fundo no fundo era também ruim e mesquinhas sim, cheia de ego e soltando mini-arrotos de soberba escondidinho dos amigos, com discursos belíssimos e ações pusilânimes como a grande grande maioria dos seres humanos e não humanos faz. Coisa bem gente-como-a-gente e não que eu veja algum mal nisso, mas que tinha a autocrítica tão boa quanto a minha tolerância com a estupidez, ah isso tinha. Sabe assim, gente que é tão boa, mas tão boa que deixa o cachorro do filho morrer de fome, porque afinal “o menino precisa aprender a ter responsabilidades”? E que responsabilidade sem dúvida é muito muito mais importante que a vida do bichinho? Então, assim então. Sem contar quando pensava nos próprios defeitos e só conseguia dizer coisas bestas como: "Ah, meu maior defeito é minha sinceridade". E por aí vai, ficando cada vez pior, mais trágico e depressivo, o que aliás, não era bem a idéia desse post, que também não tinha idéia, só a idéia de usar o primeiro e o último parágrafo que eu tinha achado sonoro e bem cadenciadinho.

E mais era tão cega a ponto de se olhar no espelho e dizer: "Puxa, como sou boa e superduper, não é incrível que uma beldade como eu seja capaz de viver e sobreviver em meio a toda essa maldade?" Não que eu exatamente duvidasse... cada um cada um, mas dependendo do dia, ver isso me dá certa vontade de esmagar cabeças de pessoas e esfregar rostos no asfalto quente por aí, não necessariamente nessa ordem, mas sempre sempre com a mesma intensidade. E assim como é necessário que os personagens de qualquer novela mexicana tenham nomes compostos, é também preciso ver, ouvir e sentir essas coisas durante a vida, pra se ter a certeza e a plena certeza de que o mundo definitivamente não é o melhor lugar para se viver, mas a minha cabecinha sim é um lugar muito muito mais aconchegante e deveras agradável que todas essas coisas; mais que qualquer realidade humanamente inventada, mais que qualquer absurdo concreto, mais que qualquer sonho utópico de juventude e mais que o rancor dos velhos caquéticos que coçam a barba por fazer sentados na cadeira de balanço da varanda de casa, invejando todas as vidas vividas e também todas as vidas sonhadas.
Diferentemente do meu ranço, ela se adaptava muito bem a essas banalidades, lavava bem a consciência no banho, mas se porventura qualquer vestígio de qualquer aresta ou espinho que estivesse crescendo em demasia na sua amada e sempre limpa e asseada consciência aparecesse, resolvia tudo fantasticamente bem indo uma vez ao mês num salão de beleza chique da cidade, cortando além das pontas duplas, também essas coisinhas eventualmente incômodas que lhe perturbassem o sono ou o modo estrábico que enxergava a vida.