RinoGas

sexta-feira, março 18, 2005
super mega desafio

o que era pra ser um post genial, não virou.




Hoje é sexta-feira e sexta é dia de:

Super mega desafio.

Toda sexta-feira alguém que admiro continua esse mesmo começo tosco de conto que eu, minha mente e minhas patas tortas escrevemos.

Hoje é a vez da Lima, a única lima doce que conheço.








Uma senhora gorducha e loquaz, conversando amenidades com uma colega de serviço que carregava seu sobrepeso com muito muito esforço. Além da gordura, levavam também uma trouxa de roupa cada uma. Iam devagar, batendo papo como boas velhas comadres que eram, falando de todos que conheciam e desconheciam, enquanto praticamente se esqueciam do mundo.

Eu ali, dois passos atrás observando, quando uma estranha sensação começou a se desencadear pelo meu corpo. No meu sangue, a inquietude circulando, tendo como primeira manifestação, uma tremedeira iniciada em meu pé direito, mas que não muito se alastrou por todo corpo. E as duas boludas lá se arrastando pelas ruas.

Primeiro entrei em pânico. Tinha-me sido diagnosticada uma doença raríssima, caracterizada por alergia grave a trivialidades e aos pólenes da primavera. Dias antes, no hospital distrital. Os sintomas envolviam tremores repentinos, como detectores de coisas superficiais. Assim, como aquelas dores de reumático quando a idade avançada de 27 anos se instala. Sente-se qualquer mudança de tempo, sabem n'é.

Foi com algum alívio que me apercebi que aquelas tremuras se deviam às vibrações provocadas no solo pelas duas criaturas que se vinham arrastando com as suas trouxas de fofocas para lavar. Claro que, quando as duas pararam e começaram a lavar a roupa e a desbobinar toda a conversa de uma semana, as tremedeiras só se agravaram! Até a ponta do nariz parecia ter ganho vida própria! Até se podia ter tornado embaraçosa a situação se não tivesse uma camisola amarrada à cintura... Tive que me sentar a um canto de uma paragem de autocarros, vazia àquela hora, porque perdi o controlo das pernas. Se soubesse tinha aceitado a sugestão dos médicos de ficar internado. Mas eu nunca poderia ter adivinhado que havia pessoas para quem o mundo era um holograma. Ou seja, para quem as vidas dos que são próximos (mas só os detalhes sórdidos) eram mais queridas do que as próprias...

Perdi os sentidos. Quando voltei a acordar, muitos mais anos se tinham passado: talvez um ou dez... Dei por mim ainda no canto da paragem de autocarro, numa primavera tardia. Inverno gelado e chuvoso. As velhas gorduchas já não lavavam a roupa. Aliás, já nem existia tanque. Apenas um terminal de camionetas. Perdi a consciência do tempo e das alergias. Já não ouvia nada. E como também já não possuía nariz, os meus próprios pólenes não me incomodavam...

Eu era terra, caule e folhas. Se calhar também era verme, na terra. E água, claro...

Glossário:

Desbobinar = deitar para fora
Paragem de autocarro = ponto de ônibus (ou qualquer coisa do género)
Terminal de camionetas = garagem de ônibus



por Lima (em itálico)