RinoGas

sexta-feira, março 04, 2005

ó, hoje eu não tô aqui porque fui pra .


--------------------------------------------------------------------------------


Hoje é sexta-feira e sexta é dia de:

Super mega desafio.

Toda sexta-feira alguém que admiro continua esse mesmo começo tosco de conto que eu, minha mente e minhas patas escrevemos.
Hoje é a vez da Olivia sem acento, escritora, de um futuro sucesso garantido.

Com vocês, Olivia:


Uma senhora gorducha e loquaz, conversando amenidades com uma colega de serviço que carregava seu sobrepeso com muito muito esforço. Além da gordura, levavam também uma trouxa de roupa cada uma. Iam devagar, batendo papo como boas velhas comadres que eram, falando de todos que conheciam e desconheciam, enquanto praticamente se esqueciam do mundo.

Eu ali, dois passos atrás observando, quando uma estranha sensação começou a se desencadear pelo meu corpo. No meu sangue, a inquietude circulando, tendo como primeira manifestação, uma tremedeira iniciada em meu pé direito, mas que não muito se alastrou por todo corpo. E as duas boludas lá se arrastando pelas ruas.

Ponderava a possibilidade de ultrapassá-las e acelerar o passo, mas a manobra seria mais complicada do que eu imaginava. Minhas pernas pareciam não me obedecer, seguindo em frente, apenas, em um movimento mecânico fora do meu controle. Um passo atrás do outro, um passo atrás do outro.

Minha mão esquerda tremia. Sentia uma vontade quase incontrolável - que eu controlava, com muito esforço - de sair correndo e gritar. Gritar. Eu queria gritar "corram todos!" e não sabia muito bem de onde poderia ter surgido essa vontade tão estranha. Mantinha os olhos fixos nas duas senhoras gordas e já não ouvia o que elas falavam. Ou ouvia? Falavam da dieta do Roberto. Não. As vozes me pareciam distantes, talvez alguém em uma varanda por ali falasse da fantástica maneira que Beto perdeu tanto peso.

Ou eram mesmo as duas fofoqueiras?

Tão distante.

- Anda mais rápido, tem um cara muito estranho atrás da gente.

Olhei em volta, mas não via mais nada. Caminhava, caminhava. "Corram todos!" Mas não disse nada. Eu apenas via as duas mulheres. O resto me pareceu desfocado, distorcido... O que estava acontecendo?

Minhas duas mãos tremiam e eu tentei parar de andar, mas era mesmo como se já estivesse parado e ainda assim andava. Não sentia minhas pernas andando. Eu queria gritar, precisava gritar. Alguma coisa, qualquer coisa. Socorro. Quem estava falando do novo CD do U2? E o telefone, alguém dizia que o telefone estava quebrado e o técnico - ainda! - não aparecera para consertar. Eu ouvia tudo e todos, e todos tão distantes. Estava ali e não estava mais em lugar nenhum.

- O Beto precisa me contar sobre esse regime!

O Beto?

Alguém tocou em meu ombro e eu pulei. Pulei e gritei.

Alívio.

Olhei em volta. Estava parado no meio da calçada. Um homem me encarava com uma expressão confusa.

- Tudo bem contigo?

Afirmei com a cabeça, para negar logo em seguida. Outras pessoas também me olhavam, do outro lado da rua e na porta de uma loja de doces. Olhei minhas mãos. Elas ainda tremiam. Movi as pernas e elas me obedeceram como sempre deveriam obedecer. Pensei que devia procurar um médico. Pensei que a dieta do Roberto devia mesmo ser muito eficiente, mas de qualquer forma não sei muito bem porque pensei isso.

No fim da rua, as duas senhoras gorduchas e loquazes viravam a esquina com suas trouxas de roupas.


por Olivia (em itálico)