RinoGas

sábado, janeiro 01, 2005
sobre

Hoje eu queria falar sobre alguma coisa engraçadinha e leve para começar o ano em alto astral. Só que tem um pensamento martelando na minha cabeça. Posso começar a conversar sobre qualquer outro assunto, mas acabaria caindo nesse primeiro. Então vou poupá-los de qualquer besteira inicial e ir direto ao assunto:

Hoje quero falar de um lugar, de um momento eterno, da proximidade distante. Eu queria saber traduzir em palavras o que eu sinto quando como um brownie que meu cunhado faz, de quando eu abraço minha irmã, encho o saco do meu irmão ou implico com minha mãe. De quando quero conversar com meu pai e não consigo, das saudades que sinto de meus avós ou das pessoas que marcaram a minha vida.

E também de como não sinto nada num dia eleito qualquer, numa data predeterminada da vida ou das escolhas dos livros. Nutro sentimentos apenas pelos que estão ao meu redor e isso aconteceria também num dia outro que não a noite de 24 de dezembro ou um primeiro de janeiro qualquer da vida. Pouco me importa esse dia específico, essa hora marcada, essa data escolhida. O importante é o sonho.

E se às vezes sinto o mundo todo numa intensidade absurda, outras ainda sinto o vazio completo e o gelo da minha própria indiferença. Estranhamente apático, distantemente ausente. Como se tudo que escutasse reverberasse em ouvidos moucos. Como se tudo que eu visse não tivesse cor, estilo ou forma. Mas tudo isso dentro de um vazio que sinto e a necessidade constante de fazê-lo preencher-se. É a presença da ausência que me mata, que me gela o sangue e que me fere a carne.
Nesses momentos tenho medo de estar sozinho comigo mesmo, descobrindo a mim e quem realmente sou. Nessas horas, quando vejo que a verdade se aproxima e me encara os olhos, fujo covardemente; me escondo da vida dando a vida dos outros como desculpa. Penso que eu tenho que ligar mais pra casa, ter vínculos mais profundos com meus amigos ou que deveria me importar em preservar o planeta. Topo qualquer negócio para fugir de mim e de quem sou. Para me proteger, me resguardando de mim mesmo. E tudo isso apenas para me sentir útil e essencial num mundo em que, definitivamente, de fundamental não tenho nada.


ilustração: gabo