RinoGas

sábado, janeiro 29, 2005
sobre a mulher com medo de ser

A própria beleza, guardava dentro de uma bolsa preta de veludo molhado. Nenhuma Prada, nem uma Louis Vuitton, mas uma dessas aí tão qualquer, comprada na vinte e cinco de março; até que bem acabadinha, de couro por dentro, mas quando se olhava de perto logo se via que era falsica e essencialmente vagabunda. Volta e meia esquecia a tal bolsinha por ai, perdida pelos cantos tomando poeira. Um dia chegou mesmo a deixar pra fora de casa, encostada na porta, tomando sereno. Era meio descuidada.

Dizia-se assim, liberta do cativeiro da formosura. Em sua leitura muito muito honrada e honesta da vida, traduzia seu encanto como uma aberração. Essa mulher que por isso aqui ó, não virou homem. Obviamente que chegou a invejar todas as mulheres do mundo, principalmente as loiras (não necessariamente de nascença) e as mais bonitonas. A verdade era que temia o mistério do feminino e sentia vergonha dos dotes que possuía. Empacotou sua beleza junto com a feminilidade pelo medo de se expor e colocou tudo dentro da bolsinha, entre a carteira e a chave de casa. Se disfarçou de feia, se disfarçou de homem, e de homem quase gay; justamente por no fundo procurar um homem a quem pudesse se entregar. Jamais iria admitir que era isso que precisava e que queria. Jamais, nunca! Negava. Mestra da negação e da mentira como toda mulher, igual a mais fuleira prostituta. Num nível diferente, pensava, como se isso a exumisse de qualquer culpa. Negava sua sina. Dessa vida com um homem abdicava, dizia não ser para ela, dizia não para ser ela.

Vomitava sua beleza, como que enojada de toda a futilidade da luxúria. E se enganava bobamente, dizendo que chique era ser inteligente. Racionalizava, se perdia num raciocínio lá e aqui, fazia umas curvas bruscas de pensamento, derrapava na pista do conhecimento aqui e ali, bateu diversas vezes de frente com a razão. Resumindo, dirigia tão bem quanto qualquer outra mulher, fazendo verdadeiras atrocidades montada na sua Lógica-XL.
Banalizava, simplesmente disfarçava e banalizava. Fazia uma cara cheia de dignidade e bom senso, depois colocava uma prótese com uns dentões feios numa carona com o mínimo do mínimo de beleza que pudesse segurar, para desprezar o valor de ser mulher. Mesmo sabendo no fundo que todo o viver era fútil e que era ela mesma fútil, mulher ou não, bela ou não, inteligente ou não. Fechava os olhos. Precisava fechar os olhos para ser feliz. A felicidade é impossível de olhos abertos e a lucidez tem como preço a infelicidade. Só que ela fechava os olhos do jeitinho errado, coitada, era pra fechar os olhos para poder ser inútil e adoravelmente fútil; não lúcida de olhos fechados, isso não dá. E a mulher que não queria ser, era cega, propositalmente feia com sua bolsinha a tira colo, dirigindo loucamente sua Lógica pela vida e obviamente infeliz.