RinoGas

terça-feira, janeiro 11, 2005
sobre a mão do paquiderme

Era uma vez um rapazinho interiorano que vivia na cidade grande. Qualquer nova pessoa que dele se aproximasse era recebida com uma sinopse da vida do rapaz. Assim, ao invés de um olá, seu cartão de boas vindas era dizer ter sido criado por mastodontes da selva botsuanense. Assim, advertia a todos os desconhecidos e reforçava aos já conhecidos, que justamente por isso era, meio assim, paquiderme.

Ziguimundo. Ele se chamava: Ziguimundo - O paquiderme.


Na verdade Zig havia sido criado por rinocerontes albaneses, mas como tinha vergonha desse lado negro, ou melhor, branco de sua vida, acabou inventando a tal história mal-lavada dos mastodontes. Achava grandioso.

Dia desses, passeando pela Fenac da Santos, por entre Cds de música tribal africana encontrou a mão mais linda que já vira até então. Aqueles dedos todos, as pintinhas, os pelinhos dourados, as unhas por fazer, a cicatriz no minguinho. Beirava a perfeição. Ele viu e instantaneamente teve a certeza que aquela era uma mão sábia.

Desconcertado e dominado pela vergonha em disputa com a curiosidade, a última saiu vencedora e ousou levantar a cabeça. Vendo assim não só a mão, mas a mulher mais linda que já vira até então. Ziguimundinho jamais deixaria que ela percebesse seu deslumbramento e interesse. Ele era um paquiderme e paquidermes que se prezam não se permitem observar as fraquezas. A não ser que ela olhasse para seus olhos. Zig ficava meio vesgo com o olho direito quando estava apaixonado. E ele estava. Perdidamente apaixonado. Intensamente, intoxicadamente até, beirando a tortura. E vesgo, muito vesgo.

Na loja abarrotada de gente, a ele, todos pareciam saber exatamente e com certeza nos olhos o próprio destino. Zig se sentia sem rumo, sem saber para onde ir, sem saber para onde olhar, sem saber o que fazer. Todos eles lá, se parecendo com formigas em ordem, em fila; como abelhas e suas tarefas precisas, geneticamente determinadas. Ele ali, perdido, um animal em desterro, sem destino. Todos tão certos, com tanta certeza do que fazer, do que comprar, de onde ir. E ele só, com suas dúvidas, suas perguntas; com cara de medo, de bobo, um rinoceronte sem dono. Um paquiderme zarolho.

A mão. Invejou vesgamente a mão daquela mulher maravilhosa. A mão tão decidida, tão única, tão maravilhosamente independente. Olhou então para a sua própria. Nunca tinha olhado para todas as própias unhas. Ziguimundo olhava as dele naquela hora pela primeira vez. Uma por uma, detalhadamente. Ficou minutos que se pareceram eternos olhando a cor, os contornos, sentindo a textura. Olhou então seu rosto refletido na caixinha do Cd. Sem dó e sem medo. Não se reconheceu. Era um estranho. Um ilustre desconhecido. Com um quê de familiar é verdade, mas ainda assim estranho. Com toda indecência e despudor olhou-se e descobriu um exagero de sentimentos dentro. Sentiu-se um armário com objetos em demasia, com camisas demais, com calças e cuecas demais. Precisava de uma limpeza urgente. Precisava de ordem.

Procura-se arrumadeira.
Faltava um sentido de ordem em sua vida. Algo que o obrigasse a arrumar seu armário; a se desfazer de certos sentimentos, sensações, cicatrizes e memórias. Organizar por cores, pelos pares, pelo cheiro.

O reflexo na caixinha. Ah, o reflexo.
E o seu reflexo lá, intenso e brilhante sem nada combinar com o tema alegre e festivo da música tribal africana. Não gostou do que viu, não gostou da sua imagem. Não combinavam. Nem ele, nem a capa e nem ele com ele mesmo. Não queria ser o que era. Em desespero, apavorado, inconseqüente e em desalinho apertou a caixinha com tanta força que acabou por quebrá-la. Sangrava, seus dedos sangravam, seu pulso sangrava e ainda Zigmundo sangrava por dentro.

Ele precisava desesperadamente de ordem. Um estalo. Uma idéia genial. Era dela! A mão de salvação. Era daquela mão sabidamente sábia que ele necessitava. Só ela teria as certezas que faltavam na vida da Zig.

Ela olhou pra ele; ele olhou pra ela, suado, desesperado. O sangue, o suor, o pavor e o medo. Tudo junto. A cara de súplica, vesga de súplica. O pedido em silêncio. A mão compreendeu. Ela soube. Aquela mão que sempre sabia entendeu exatamente o que Zig queria. Subitamente e eloqüentemente a mão desapareceu, escondeu-se atrás das costas da linda moça. Como uma negação, como fuga. Na resposta mais precisa dentro do universo de respostas precisas.

E preciso foi o troco!
O sonho esmagado, o desejo frustrado. A raiva, o ódio, a caixa de Cd quebrada, como faca, lâmina. O grito, a mão, mais sangue, mais dor.

Enfim a mão, dele.

Calmamente ZiguImundo passou no caixa, para pagar a conta e disse: Mocinha, por favor, o Cd e a mão em pacotes de presente separados, sim?