RinoGas

sexta-feira, janeiro 21, 2005
sobre abelardo e seu príncipe

Abelardo Antonio da Fonseca Coutinho Maia é advogado. Tem quase trinta anos e mora confortavelmente em um prédio localizado de frente para o mar. Dentre as coisas feitas e as mal-feitas, consta que nunca assistiu um episódio de Seinfeld por inteiro, e sabe o gosto de sorvete de pistache. Abelardo é um sujeito bem de vida, inteligente e educado. Mas Abelardo tem algo de diferente. Uma pequena imperfeição, nada assim absurdo, na verdade algo bem simples até; Abelardo tem um sexto dedo no pé direito. Olhando de lado, pensa-se até que é um joanete, mas quando fixa-se os olhos, ele está bem ali, ao lado do caçula dos dedos. Apareceu um dia ainda quando era pequeno, e Abelardo se afeiçoou. Chama-o carinhosamente de Ronnie Von porque ele tem uma unha. Pequena, mas tem. E Abelardo acha que ao olhá-la de longe ela parece uma coroa, logo o dedo a mais é seu Príncipe. Nunca se casou porque nenhuma mulher ainda o aceitou exatamente como é. Quem amá-lo terá que amar também o seu sexto dedo.

Abelardo na verdade sempre teve dificuldades de se relacionar. O fato é que já no seu primeiro amor, nunca pôde perdoar sua mãe por não tê-lo aceito do jeito que era. Senhora Coutinho Maia sempre exigiu que o futuro senhor Coutinho Maia usasse sapatos fechados. Antes ela tivesse inventado uma estória engraçadinha sobre o dedo. Os Coutinho Maia nunca estudaram psicologia.

Abelardo chegou a pensar em cirurgia estética reparadora. Mas extirpar o Príncipe seria deixar de ser o que realmente é, para se tornar aquilo que esperavam que fosse. E isso, era o maior pecado que um ateu como ele poderia cometer. Seria como que trair a si mesmo; mais um, na série de traições iniciada por mamãe é verdade, mas pelo menos ele deveria manter-se fiel a si mesmo, nem que fosse o único em toda sua vida.

Abismava-se ao pensar que o traço mais marcante da própria identidade era exatamente sua imperfeição. Até o dia em que foi traído pela própria identidade. Assim como apareceu, o Príncipe desapareceu, sem mais nem menos, sem qualquer explicação. Abelardo deixou de ser ele mesmo e se tornou mais um no universo dos comuns, perdeu-se de e em si para tornar-se o maior traidor de sua vida. E finalmente, como um Coutinho Maia distinto, pôde usar as tão sonhadas sandálias havaianas.
por Srta. Bia e Rinogas