RinoGas

terça-feira, dezembro 28, 2004
sobre ser ou não ser pop

Filha: Mamãe vem cá, senta aí na pontinha da cama. Eu encolho meus pés, vem, senta aqui que preciso falar uma coisa. Ah vai, não faz essa cara. É sério, precisamos conversar. Olha mãe, sou sensata e não gosto de embromação, então vou ser direta: eu quero ser pop.

Mãe: Ah tá, é essa a da vez?

Filha: É mãe, pop. Quero ser pop. P-O-P, pop.

Mãe: Mas minha filha por que isso agora? Não dá pra continuar sendo pós-moderna e enquanto isso fazer um cursinho de modelo e manequim pra ver se é realmente isso que você quer?

Filha: Não, não dá pra fazer um cursinho de modelo-manequim não. Porque meu sonho é ser pop. Tudo que eu sempre quis foi ser pop. Mamazita, quero ser pop! Quero muito glitter, quero usar blusinhas com pompons rosa na gola. Quero aparecer na TV, quero dar entrevista pra Capricho. Quero ter fãs, quero fazer sucesso. Deixa vai?!

Mãe: E seu pai? Já falou com ele?

Filha: Papai? Ah, papai continua a vidinha dele. Acho que até vai fazer um bem para a carreira e para as empresas da família. Ele não tem mania de se dizer neoliberal? Que faz e que acontece? Que pode tudo e tudo pode? Então, um pouco de marketing e publicidade não vão fazer mal nenhum, pelo contrário. Mas vem cá, e o meu irmão, hein? Ele vocês deixam fumar maconha e pior, vocês deixam ele ser grungee! E agora eu não posso ser pop?!

Mãe: Filha, olha, primeiro não vejo mal nenhum em ser grungee. Se você quiser ser grungee, a mamãe até aceita. Segundo, você sabe muito bem que eu e seu pai na nossa adolescência também fumávamos maconha, com que cara vou chegar pro seu irmão e dizer que ele não pode? Não tem como. Nós temos caráter, sabia?

Filha: Eu sei, ok. Ele que seja o que ele quiser, tá. Mas eu quero ser pop, deixa vai?!

Mãe: Mas pop? Era só o que me faltava. Pop! Primeiro você queria ser líder do movimento sem-terra. Não passou muito e largou todos eles lá. Até hoje os coitados ligam aqui em casa à cobrar, perguntando por você. Depois queria porque queria ser a apresentadora de programa de auditório. Também não durou! Antes de ontem eram as ONGs e a neo-esquerda. Gastou uma dinheirama com as inscrições, falou e falou que queria ser da neo-esquerda, que o Lula era o máximo, que queria ser que nem ele, que era seu sonho, que isso e aquilo. E já hoje, nem dois dias, já quer mudar e ser pop?

Filha: Mas é que só descobri hoje que é isso que eu quero da minha vida, e já decidi. Agora não tem volta. E tem mais, vou ser pop com o apoio de vocês ou não. Só que eu acho que na minha futura biografia fica melhor ser pop com o apoio de vocês. Ou não...

Mãe: Pois muito bem, então tá. Se é pop que você quer, é pop que vai ser! Mas vem cá! E a Heloisa Helena? E a Chauí? Vai largar todas elas? Quem vão ser suas amigas agora? Quem vão ser?

Filha: Ah mãe, qualquer coisa, se eu não gostar de ser pop eu mudo, volto pro Greenpeace e pro Lula oras. Quanto a Helô e a Mari acho que não tem problema delas continuarem vindo aqui em casa, mas quero que a Sandy e a Wanessa se sentem ao meu lado na mesa, tá?