RinoGas

quinta-feira, dezembro 16, 2004
sobre o ministério da saúde e certas faces

Adoro as campanhas do ministério da saúde. Coleciono as fotos artísticas atrás dos maços de cigarros, gravo em VHS as campanhas contra a AIDS e ow sim, tenho um carinho todo especial pelas campanhas contra o cólera, como não ter?
Assisto o teleton e o criança esperança todos os anos. Inclusive tem até um episódio deste último que marcou profundamente a minha vida. Vez por outra ainda sonho comigo empurrando o Didi de lá de cima do cristo redentor. Ele acaba por ser salvo no último segundo pelo balão mágico, enquanto eu desoladamente choro todas as dores da moralidade brasileira. O sonho termina comigo espalhado pelo chão, depois de optar por saltar de lá cima numa tentativa vã de furar o balão e morrer com todos eles. Tem o aspecto suicida obviamente, mas acima de tudo, o nobre ideal de salvar o mundo.
Além dessa face trágica, preciso confessar que tenho também um lado masoquista um tanto desenvolvido. Eu poderia, num exercício de auto-flagelação, participar do ciclo de leitura das obras poéticas de Lya Luft, ou assistir a todas as palestras do Dr Lair Ribeiro. Poderia até fazer os dois ao mesmo tempo e tudo isso com uma impassível e polida face docemente austera. Seria capaz sim, sem dúvida.

E com isso vislumbro semelhanças marcantes entre nós dois. Não que eu tenha a louvável abnegação do estado ou o seu zelo pela educação e informação de todos os degraus e pilares da sociedade, abrangendo completamente qualquer camada da coletividade. Mas não posso esquecer que enquanto a maioria das crianças morrem de diarréia e desidratação, com a mesma face polida e o mesmo sentido masoquista que eu tenho, o ministério da saúde em todo seu altruísmo e elegância adverte: fumar é prejudicial à saúde.