RinoGas

quarta-feira, dezembro 22, 2004
sobre a caixinha e sentimentos pitocos

Na teoria não encontrava justificativa para seus preconceitos, no entanto eles estavam sempre lá, escondidinhos em algum mesmo lugar. Vez por outra saiam correndo dos respectivos esconderijos pulando, gritando e por fim dizendo olá. Eram assim, sempre assim.

Na realidade vivia em crise, uma luta constante entre o que pensava e o que sentia. Se ideologicamente tinha suas certezas, estas eram prontamente desconstruidas e desarticuladas pelos sentimentos próprios que nutria. Os sentimentos com toda arrogância que lhes são peculiares, sem muito esforço, sem usar de nenhum argumento mais intenso, bastando apenas um olhar, desmoronavam as crenças e toda a lógica do mundo. Como é característica da sobre-humana capacidade das ninfetas e dos garotos de programa, os sentimentos vencem apenas com o olhar.

Mas não há como negar que apesar de tudo isso, era um homem de nobres esperanças. Todavia, mergulhado em seus sentimentos e seu insondável torvelinho. Procurando resposta que não tinha pra se dar. Procurando o próximo passo com todo o cuidado para não cair no abismo de si mesmo. Tateava no escuro, dando passos milimetricamente calculados, minuciosamente estudados e previamente tracejados. Avaliava todas as chances do inavaliável, ponderava as possibilidades do imponderável e media os limites do infinito.

Se enganava. Se enganava docemente para se sentir seguro. Para acreditar que todos os acontecimentos tinham razão e motivo. Para embasar sua crença na sincronia e na causalidade da vida. A causalidade era mais racional que o simples caos, portanto era ela quem, por excelência lógica (segundo ele), deveria existir.

E todas as vezes que os sentimentos escapavam, terminavam por fazer suas traquinagens. Ele ia lá correndo, buscando todos eles para colocar de volta no espaço reservado a cada um. Catava um pelo braço, enquanto outro se contorcia e retorcia no chão de tanto rir (da cara) dele. E sempre tinha um mais sapeca que insistia em ficar no ramo mais alto, da árvore mais alta, no morro mais alto das redondezas jurando que podia voar e alcançar o céu. Crianças sapecas, pitocos sarcásticos, sonhadores utópicos, prostitutas baratas, velhos medíocres. Toda a sorte deles. Finalmente reunia todos e voltava a escondê-los num cercadinho escuro da memória jurando que de lá nunca mais sairiam.

E era isso que importava, o que sentia em relação a si mesmo. E não há dúvidas que se sentia seguro na própria fortaleza que havia construído para si próprio, sobre seus alicerces de luz e fumaça.