RinoGas

quarta-feira, novembro 24, 2004
sobre sentimentos bonitinhos e frankensteins II

(continuando...)

Agora se você é assim, cheio de sentimentos bonitinhos escondidinhos, pronto, tá perdido. Ser Frankenstein com muita maquiagem é pedir pra desandar na certa.

(Sempre existe aquele chato que vai perguntar, mas desanda por que?)

Já me adianto e respondo:
Desanda porque desanda.

(Sempre quero dar essa resposta, mas nem mesmo os menos chatos aceitam essa resposta).

Então tá, tento de novo:

Desanda por que deus quis.

(Essa também é ótima, só que os médios chatos ainda não aceitam).

Última tentativa:

Desanda porque se ser um Frankenstein já é difícil, quem dirá com maquiagem.

De qualquer forma, independente da resposta eu mesmo já faço uma pergunta que deveria ter vindo antes dessa: Mas por que Frankie?

(Perguntas retóricas foram feitas para todos os megalomaníacos. Nós arrogantes e petulantes somos assim, adoramos perguntas retóricas, justamente por já termos respostas pré-fabricadas.)

Somos Frankensteins justamente por sermos um conjunto de personagens colados e costurados uns nos outros. O filho remendado ao pai. A alegria presa à tristeza. O santo colado ao prostituto. No mesmo braço que acaricia está a mão que espanca. O ouvido paciente com a língua venenosa. O divino e o demoníaco. Tudo isso junto, amontoado, espremido e esmagado. Montes de peças diferentes, contraditórias e inconsistentes unidas sob um mesmo corpo.

Querer maquiar, cobrindo com sombra e pó de arroz não muda nada. Não apaga o que está por baixo, nem por trás da máscara. A salada de sentimentos é a mesma. Mesmo que ela esteja coberta com chantilly e uma deliciosa cereja vermelha graúda no topo.
Tarda mais não falha. Sabe o ditado? Então, deus fez esse ditado justamente para isso, para os sentimentalistas bonitinhos maquiados. Só pra usar nessa ocasião. Assim como deus escreve certo por linhas tortas, Frankies de batom e rimel acabam se dando mal na vida. Desanda. Um dia chove e acaba pegando o Frankie desprevenido. A maquiagem derrete. A máscara cai, o real aparece. Tarda, mas não falha.


Ilustração: Lynch Surf