RinoGas

terça-feira, novembro 23, 2004
sobre sentimentos bonitinhos e frankensteins

Imagina comigo:

Você está passeando num parque qualquer, num sábado qualquer, numa hora qualquer. E lá estão várias pessoas andando, pra lá e pra cá. Algumas a pé, outras de bicicleta, outras ainda de patins e também aquelas com seus respectivos cachorros de estimação. E como andam! Pra lá e pra cá. Pra cá e pra lá.

De repente - no meio dessa bagunça - surge uma garotinha com todos os seus longos, tenebrosos e irritantes quatorze anos. Ela pára, abaixa e grita olhando para um desses cães felpudos que caberiam dentro do bolso de uma calça apertada: “Ahhhhh, que bonitiiiiiiiiinhoooo! Olha que fofinho! Quero um desse pra mim, manhê”. O dono (entre satisfeito e inseguro) dá um sorrisinho amarelo e vai saindo meio que arrastando o cachorro a força, deixando logo a menina para trás.

Sabe como é isso? Não é difícil imaginar a cena. Agora se coloca no lugar do cachorrinho. Se alguém faz isso com você (não a parte de parar e abaixar, e sim a de dizer que você é bonitinho ou algum dos seus equivalentes), e você acha o máximo, fazendo uma cara de cachorro dengoso, significa que você também tem sentimentos bonitinhos. O que é altamente preocupante.

Eu não tenho sentimentos bonitinhos e nem mesmo quero servir de inspiração para sentimentos bonitinhos. Não sou um cachorro fofinho com lacinho na cabeça. Ou um poodle amestrado que deita, rola e se finge de morto. Eu sou como eu sou, cheio de defeitos e imperfeições. Sou uma salada de sentimentos misturados e disformes. Somos todos assim, aliás. Frankensteins. Uns com mais, outros com menos maquiagem.

Dizer que é bonitinho, que é fofinho, que é lindinho ou que é um mimo fica bem para meninas de treze, quatorze ou no máximo quinze anos; como aquela garotinha do começo (na verdade não acho que fique bem não, mas é até aceitável, digamos assim). Elas que acreditam em seriados do Sony e em sentimentos bonitinhos. Para todos os outros, a vida real e um Frankenstein de cara limpa são mais do que suficientes.
(continua...)