RinoGas

sábado, novembro 13, 2004
sobre o "walkingman" e o futuro

Depois de um longo dia de trabalho ele voltava para casa. Depois de quinze horas trabalhando praticamente sem parar, finalmente ele poderia fugir de tudo e de todos. Era hora do rush e com o metrô apinhado de gente não pôde se sentar e nem mesmo de pé conseguia ler seu livro. Ele queria ao menos poder ler para se distrair, esquecer do mundo, da vida, daquela gente que o cercava e da opressão que sentia. Mas o máximo que conseguia fazer era sentir o cheiro de ranço a sua volta. Fechou os olhos.

Mesmo com os olhos fechados nada daquilo desapareceu, o cheiro continuava. Permanecia. O odor de gente, do povo, de humanidade. O cheiro de ser humanamente humano. Parou de respirar para sumir com o cheiro, parou de respirar para desaparecer. Que nada! Além do odor, sentia a textura engordurada da barra metálica que lhe servia de apoio. Era o apoio típico que sempre tivera em sua vida. Um apoio do qual necessitava desesperadamente, mas que exigia desapiedadamente algo em troca. Só receberia o apoio se recebesse também o castigo. Aquela barra permitia com que se segurasse, mas exigia em troca que sentisse nojo nas mãos e desejo de largá-la. Sede e desprezo no mesmo momento. Aquela barra era exatamente igual a sua vida, ele precisava desesperadamente viver, mas em troca ela exigia que ele fosse infeliz. Sentia-se nauseado. O cheiro, o sebo, o calor. A frustração, a raiva, o ódio.

Largou tudo – jogou tudo pro alto - a bolsa, o walkman, o jaleco. Cuspiu, gritou, empurrou e correu. Não importava pra onde, só importava que corria, que fugia, que escapava, que deixava para trás e para sempre aquilo tudo. Correu, correu e correu até que se cansou. E então andou. E se tornou o homem andante.

O futuro é uma ilusão e as ilusões, os únicos bens que realmente se possui. Ele decidiu abandonar tudo, as ilusões, o futuro e os bens.

E nunca mais voltou.