RinoGas

sexta-feira, novembro 19, 2004
sobre a insônia e o fiapinho

De noite, deitado na cama, ainda de olhos fechados sentia-se ausente de tudo, ausente da própria vida. E era a presença da ausência que não lhe permitia dormir. Tinha algo que o incomodava; não sabia se sentia calor, se frio, se fome, se sede, se preguiça ou vontade de trabalhar. Só sabia que algo definitivamente o incomodava. Começando pelo pijama de malha com brasões e listrinhas. Brasões não combinam com listras, pensou. Despiu-se, tirou peça por peça até ficar completamente nu. Jogando tudo pra fora do corpo e da cama. Tirou máscara por máscara, jogou no chão cada papel que representava ou que já houvesse representado. E ali mesmo no pé da cama amontoadinho as roupas, os papéis e as máscaras. Sentiu-se mais estranho, sentindo-se incompleto, repleto de buracos e falhas. Queijo suíço. Dessa vez ele não desistiria, iria até o fim. Decidiu tirar também os defeitos, as qualidades e os predicados. Mas isso só depois de jogar no chão o livro que sempre ficava debaixo de seu travesseiro. “Elogio da loucura” já pro chão. Foi tirando pedaço por pedaço. A pilha do lado da cama já enorme, desse tamanhão. E ficou só um fiapo, um fiapinho tacanha. Sem tirar nem pôr, um fiapinho. Achou sem graça, catou tudo de volta, vestiu direitinho, o livro de novo embaixo do travesseiro, até o pijama de brasão e listrinhas vestiu. E então dormiu como um anjo, merecedor do sono profundo que dormia.